Um Pouquinho da História Para
a Primeira Festa da Família
Rodrigues Pedroso Castelo Branco

José Antonio Vicente de Souza

         Em uma tardinha, na Fazenda Aldeia, Euzébio Rodrigues estava debulhando milho, sentado na frente da cozinha, quando Terta chega de mansinho e disse. – Euzébio sempre tô sentindo tonteira e enjôo, também não agüento sentir o cheiro de torresmo. – Mas não diga Terta, que bom! Ocê tá é prenha, e se for menina vai se chamar Genuína, nome da minha mãe. Terta se aproximou de Euzébio e disse baixinho – Mas Euzébio, se for menina eu queria tanto colocar o nome de Raimunda, para homenagear a minha mãe, ela é tão boa pra gente. – Mas Terta, temos que seguir a nossa tradição: nos primeiros filhos se coloca o nome dos avôs por parte do pai. Terta olhou para Euzébio com aquele olhar contrariado e saiu dizendo - costume bobo, coisa de gente antiga, para agradar os maridos. Euzébio saiu atrás dizendo – não se aperreie com nome de menina mulher, eu acho que vai ser é um menino homem e vai se chamar Domingos, nome do meu pai. Já estava escuro, Terta acendeu a candeia de mamonas enfiadas na tala de buriti e entrou para cozinha, ainda tinha que fazer angu para os cachorros que iam cedo com Euzébio pastorar mais de trinta novilhas até Fazenda Bom Retiro, iam levar para Francisco Pedroso criar a meia. Na cozinha, Euzébio pegou a bacia e foi lavar os pés, pois tinha que dormir logo, pra levantar bem cedo e subir a serra, queria chegar com as vacas no Bom Retiro ainda antes do almoço. Terta foi para o seu quarto e estava sentada na cama rezando. Com uma mão segurava o terço a outra uma santinha de madeira - Nossa Senhora das Mercês que a sua mãe lhe deu em uma Festa do Andrequicé, ela pedia as bênçãos da sua santa protetora, queria muito uma linda menina, mas se não fosse para chamar Raimunda ela não fazia questão. Que fosse então menino homem! Euzébio já estava roncando, Terta apagou a candeia, deitou e ainda ficou pensando, e se colocasse o nome de Raimunda Genuína, ou Genuína Raimunda, mas não, de qualquer um dos jeitos ela não achava bonito e depois, dois nomes não dava certo para mulher, dormiu pensando que ia acabar tendo que fazer o Euzébio aceitar o nome de Raimunda.
         De madrugada o galo cantou, e daí a pouco a passarada se alvoroça anunciando o clarear do dia, Euzébio, Zé Vaqueiro, e os três cachorros que valiam mais do que um vaqueiro - desde pequenos foram ensinados - saíam buscando e levando o gado. Euzébio montado na sua mula baia, fazia presença, homem vistoso, alto, moreno claro, olhos castanhos cor de mel, bigodes grandes e largos, bonito igual o seu nome - Euzébio Rodrigues de Oliveira, mas Terta também não ficava pra trás, mulher bonita assim, por ali não existia, cabelos castanhos e longos, rosto mais afinado, olhos verdejados, magra e alta . O seu nome completo, Tertuliana Amâncio Rodrigues de Oliveira, também chamava a atenção dos olhares.
         Os dias iam passando e Terta ia engordando. Euzébio cada dia se impressionava mais com o tamanho da barriga dela. Um dia Terta acorda no meio da noite e chama Euzébio: - Euzébio, Euzébio, estou morrendo de vontade de comer rapa de jatobá meio verde, com farinha e açúcar. – Mas Terta, onde eu é que acho jatobá uma hora dessa? Onde eu não sei Euzébio, mas vá, eu quero, minha boca está cheia d’água. Euzébio lembrou logo que se não satisfizesse o desejo de mulher grávida o filho nasci de boca aberta pra sempre. Então ia vê se achava o jatobá na mata depois da serrinha. Terta achou melhor avisar logo a Dona Rita, pois de amanhã não passaria, era a parteira daquela região. Mande avisar também a minha mãe, pois ela quer ver a primeira neta nascer. No outro dia, quando dona Rita chegou examinou e falou logo – pode ficar sossegada, pelas minhas marcas, ainda deve durar mais de duas semanas, vocês estão impressionados com o tamanho da barriga, mas tem mulher que é assim mesmo, e quando é assim costuma ser um bitelo de um menino homem, chega a pesar até mais de cinco quilos. Dona Rita foi se embora, mas no dia marcado ela voltou e não deu outra lá pra meia noite começou o corre-corre. Euzébio não quis ficar no quarto, no meio dos afazeres de Dona Raimunda e a parteira. De repente houve um choro e Dona Rita mostrou: - é uma menina! E imediatamente Euzébio respondeu lá de fora – e vai se chamar Genuína! Em seguida veio outro choro... era outra menina, Terta disse bem alto - e vai se chamar Raimunda!
         No outro dia, Euzébio levantou cedo, foi pegar bambu, e trançou dois balaios grandes e cumpridos para colocar as menininhas, Nhá Tonha fez dois colchãozinhos de algodão, pra forrar os balaios, era como se fossem dois berços, só que dependurados nos caibros do telhado, para poder balançar. Todos os dias à noitinha, Terta se colocava entre as duas cestas e devagarzinho ninava as meninas: “Dorme neném que a Cuca vem pegar, Mamãe foi pra roça e Papai foi trabalhar”, cantava e cantava, cada vez mais baixinho, até as criancinhas adormecerem.”
         Na próxima Festa que houve no Andrequicé, Euzébio e Terta foram registrar e batizar as meninas, os avôs foram os padrinhos, e agora de certo afirmar o nome das meninas: Raimunda Rodrigues de Oliveira e Genuína Rodrigues de Oliveira. Depois da festa desmontaram a rancharia e voltaram nos carros de bois, para a Fazenda Aldeia. Ali as garotinhas iam crescendo, crescendo. A primeira palavra que Raimunda falou foi Genú, chamando Genuína e o apelido foi consagrado. Genú, era muito séria e concentrada, falava pouco e baixo, mas Raimunda era muito brincalhona e sapeca, não perdia tempo, corria pra lá e pra cá, brincava com os cachorros, com os gatos, conversava com todos que chegavam, dava a maior canseira perguntando o tempo todo. Gostava de falar os versos que ouvia e sabia tudo quanto era canção. Quando dava de tarde elas iam colher os ovos das peruas e das galinhas, de patas, quase não tinha, Raimunda gostava mesmo era de pegar os ovos das cocás lá no meio do pasto ou nas moitas de capins perto das grotas. Gostavam de tomar banho no córrego, nadar junto com os patos e de pescar de anzol nos barrancos do Rio São Francisco, mas o que mais gostavam mesmo era de ver o seu pai pescar Curimatã de espingarda e sentir o susto do tiro, quando não acertava, faziam a maior gritaria, vendo os peixes se esconderem debaixo das pedras. Naquela época pescar não era difícil, principalmente no São Francisco, cheio de todas espécies. Queria comer um, era só ir lá no rio buscar, se era tempo de água limpa dava até para escolher, se Surubim, Dourado, Traira ou até Jacaré. Euzébio não gostava que matassem os peixes pequenos, deixava os meninos pescar de peneira ou de pano de saco, mas depois tinha que soltar, até as piabas grandes!
         Quando as gêmea fizeram cinco anos, Terta ficou grávida novamente. Desta vez Euzébio tinha certeza que era um homem, ele queria e precisava fazer o seu sucessor. Os nove meses passaram muito mais depressa e Terta começou a sentir as dores do parto, logo depois do almoço, já estava sentindo alguma coisa pois ela nem quis comer. Euzébio tinha que tirar as meninas de perto, então mandou, elas catarem flores na Vereda Grande, pediu que trouxesse também uns ôlhos de buritis, pra tirar a seda. Inhá Tonha queria amarrar umas vassouras de palha e costurar a boca dos sacos de arroz. As meninas adoravam pegar as florzinhas secas das veredas, pra enfeitar a casa e colher samambaias, ainda verdes, daquelas de folhinhas duras, para enfeitar o presépio que elas faziam todos os anos – presépio grande de encerado de saco de linhagem, com cola de polvilho doce, misturado com um pouquinho de terra, para tingir e dar a idéia de chão e com caquinhos de vidros para fazer brilhar as montanhas, onde colocavam os carneirinhos brancos, que vovó Raimunda fazia de tabatinga-argila branquinha, tirada ali mesmo na Vereda Grande.
         Dos passeios que faziam, as veredas eram o que mais apreciavam - ficavam horas olhando as borboletas de todas as cores, voando fazendo caracóis e quando pareciam tontear, pousavam nas folhas dos pés de buritis menores, gostavam de enfiar a mão nos olhos d’água, para sentir o borbulhar e ver o minadourozinho jorrar água para fora indo depois se juntar num rego, até se transformar no córrego do Buriti dos Porcos, corregozinho de nada, pois logo desaguava no Rio São Francisco, mas nele os peixes subiam para desovar na época das cheias.
         Raimunda era inquieta, e fazia coisa que ninguém sabia quem ensinara, pegava as Sempre Viva e tirando as pétalas dizia – Bem-me-quer, mal-me-quer. Bem-me-quer, mal-me-quer. Genuína era mesmo mais parecida com sua mãe, não acreditava nestas superstições, gostava mesmo era de brincar de bonecas na varanda do paiol ou no monjolo, perto da porta da cozinha, tinham duas bonecas grandes-bonecas de pano que sua vó Raimunda, mesmo fazia. Genú ficava trocando de roupas das bonecas, eram roupinhas de neném que não serviam mais, vestia uma, logo tirava e vestia outra, até se cansar e dormir na esteira de buriti, colocada no chão batido, ao lado do pilão, sob os olhares atentos de Inhá Tonha, soprando o arroz que o monjolo acabara de pilar.
         Depois de grandinhas Genú e Raimunda ajudavam a sua mãe nos trabalhos da casa, mas também ajudavam ao seu pai, a campear, prender e apartar o gado, e até tiravam leite se fosse preciso. Gostavam muito de tratar das galinhas e dos porcos.
         Terta era muito organizada e ensinava as meninas a ter hora pra tudo, pra trabalhar, pra brincar e pra estudar. Eram muito inteligentes e com sete anos já sabiam ler e escrever, foi Terta mesmo que lhes ensinara, elas tinham que estudar pelo menos duas horas todos os dias. Depois Euzébio, mandou elas para a escola do Andrequicé, era pra aprender melhor fazer as contas, aritmética, geografia e história, pois pra ele, “ mulher pra dar criar, primeiro tem que saber ensinar, lavar, passar e cozinhar”.
         Genú e Raimunda voltaram do Andrequicé estudadas. Um certo dia Euzébio, chamou Terta. – Acho que já está na hora de tomar as providências e casar as nossas filhas. Terta espantou-se. – Mas Euzébio de Deus, casar nossas meninas! Como assim? Que providencias são estas? Elas são tão novas, nem pensam nisso! Outro dia mesmo, na Festa do Andrequicé vimos que não se interessaram por nenhum rapaz, se quer um olhar, nem dançar elas não sabem ainda. – Mas quem falou que pra casar precisa de saber dançar? Precisa é saber lavar, passar e fazer comida e isto elas já sabem, elas também já tiraram a quarta série graças a Deus! Terta respondeu. – Tá certo Euzébio, mas elas não fizeram ainda nem quinze anos. – Mas você está reclamando de que Terta, você não casou com treze? Depois, casar cedo é muito melhor é mais fácil pra criar a família. – Mas casar com quem? Disse Terta. - Desde que estas meninas nasceram encontrei com o Francisco Pedroso no Bom Retiro, e ele me mostrou os seus dois meninos e ficamos mais ou menos combinados de casar os nossos filhos e acredito que no compromisso dele. – Mas como fazer se nossas meninas mal conhecem eles, duas ou três vezes que eles se viram e ainda eram crianças. E se elas não quiserem? – Não tem nada de não querer, este é o melhor futuro que podemos dar a elas, os rapazes são de boa família e tem muitas posses, não precisamos preocupar com mais nada. Vou mandar falar com o amigo Francisco Pedroso e com sua mulher Rosa Vieira, para trazer os rapazes e ai acertamos tudo.
         Não durou dez dias e eles chegaram, de um lado da sala, sentados em um banco estavam a família das meninas e do outro lado, noutro banco estavam os meninos com os seus pais. Elas olhavam assustadas, já sabiam que um se chamava José e o outro João Pedroso. Então Euzébio avisou que as mulheres podiam ir para a cozinha adiantar o almoço e eles iam acabar a combina. E perguntou sobre o compromisso dos casórios, Francisco Pedroso respondeu que compromisso feito é compromisso cumprido. E Euzébio achou que então agora só falta definirem quem vai casar com quem. José Pedroso respondeu logo: - eu quero é a Raimunda! Mas, João Pedroso disse, - eu também quero é a Raimunda. - E agora amigo João Pedroso que vamos fazer? - É fácil estas coisas tem a regra que determina que quem escolhe primeiro é o mais velho e neste caso o José tem direito. João indignado retrucou: - então pode ficar com ela, só porque ela é mais bonita? Pois saiba “que beleza não põe mesa”.
         De dentro do quarto Genuína e Raimunda estavam ouvindo toda a conversa, uma segurada na mão da outra pedindo a Deus que ajudasse para que tudo desse certo do jeito que haviam combinado: - a Genuína ficaria com João, porque era muito devota de São João e Raimunda com José, porque era muito devota de São José, assim elas acreditavam que os seus santos podiam ajudar para que elas fossem muito felizes no seus casamentos!
Euzébio chamou todos para a sala, na verdade ele queria já marcar os casamentos. Terta logo interviu. – Mas Euzébio pra que tanta pressa? - Comigo é assim, se tá tudo acertado não tem nada que esperar. Vamos marcar para daqui noventa dias. Tudo bem, mas você sabe que o Padre já avisou que só vai fazer casamento na Festa do Andrequicé, não vai mais ficar de fazenda em fazenda casando o povo, quem quiser casar vai ter que ser na festa da padroeira. Euzébio meio irritado, explicou: - com o Padre eu já acertei, ele vem fazer o casório e na volta eu vou mandar o Zé Vaqueiro, ir com ele levando uma dúzia de bezerro de ano para o leilão da construção da Igreja de Nossa Senhora da Piedade, no Bagre. No acerto vai também aquela mula Baia é pra ele fazer as suas viagem por que o seu cavalo morreu, pra ele ela será de grande valia, pois é muito mansa. Terta um tanto assustada, se volta - mas está em cima da hora, tem a festa, o enxoval e muita coisa pra se arrumar. Domingos dirige-se ao Francisco Pedroso e diz, - se o amigo não se opor a data está marcada, pois o enxoval destas meninas ta sendo feito desde que elas nasceram, deve ter mais de seis baús cheios, é só dividir três para cada e a festa é só chamar o povo e matar quantos boi, porcos e frangos que forem preciso... É amigo Euzébio vejo que está muito animado, pelo visto vai ser um festão.
Os dias passaram depressa demais e chegou a hora do casamento, uma festança de todo o tamanho, nunca se viu tanta gente, chegava os parente e amigos de todas as partes. As noivas vestidas igualzinhas todas de branco, coroinhas de flor de laranjeira e véu, parecendo de Nossa Senhora. O Padre chegou um dia antes, dizendo que era por causa das confissões. Como de costume rezou a missa e depois os noivos entraram e foram celebrados os casamentos. Três dias de festa, muita comida, sanfona e outros instrumentos. A quadrilha com os noivos deu inicio as danças, dançavam o gambá, o cortado, a lundu, catira, forro e até bolero.
         Dois dias depois da festa, Euzébio mandou preparar mais um carro de boi, pois o carro de Francisco Pedroso não cabia tanta coisa, oito baús de roupas, algumas plantas e Genú ainda queria levar a sua cachorra Fuzaca, por mais que o seu pai pedisse para não levar a cachorra, pois estava muito velha, queria levá-la assim mesmo, dizendo que ela lhe a acompanhava desde que nasceu e queria cuidar dela até o fim.
Estava na hora de partir, Terta despediu das suas moças com um abraço forte e foi lá pros fundos da casa, não queria vê-las indo embora, só se ouvia o cantar dos carros de bois subindo a serra. Terta então pedia que Deus as acompanhasse e que pudessem ter muitos filhos para render a família, pensava, não demora nem dez dias vou pedir o Euzébio pra ir lá ver as minhas filhas.
Agora na Fazenda Aldeia, só ficaram morando Euzébio, Terta e Domingos. No inicio sentiam muito a falta das meninas, um grande vazio tomava conta da Fazenda, aos poucos foram acostumando e tudo voltou ao normal. O rio São Francisco descia sereno margeando as terras daquele lugar, noite de lua cheia, ele se perdia de vista para cima e para baixo era como se as águas colorissem de um alaranjado brilhante-reflexo da lua.
         O tempo foi passando e Domingos conheceu Ana Coelho - moça muito bonita e prendada, o namoro deu certo, depois de pouco tempo se casaram e moravam na fazenda Aldeia, junto com mãe Terta. Euzébio já havia morrido, morreu muito novo, de repente, pertinho do Rio.
         José Pedroso e Raimunda moravam na Fazendo do Cercado, onde já tinha um curral de gado e ali ao lado, ele fez a sua casa, não muito pequena, pois pensavam em ter um tanto de filhos.
         A Fazenda do Bom Retiro e do Cercado fica uma de frente uma para a outra, nada mais de três quilômetros, só não se avistam, por causa de uma subidinha e um cerrado que tampa as vistas.
         José Pedroso e Raimunda logo tiveram o sua primeira filha, Tiburtina a Tibu João Pedroso e Altamira a Mica, as crianças viviam ali tranqüilas sob os cuidados dos pais atentos. Certo dia Tiburtina e Mica haviam brincado o dia inteiro e enquanto isso Raimunda remendava as roubas na varanda do fundo, ouvia-se o cantar triste das Coans, e ela assustou pois dizem que “cantar coan ao entardecer e sinal que alguém vai morrer”, Raimunda se preocupou pois José Pedroso estava para Curvelo, a mais de 10 dias e levou com ele o Filho João Pedroso, foram com os carros boi cheios de toucinho e carne salgada, feijão, rapadura, arroz, lá ele pretendia comprar querosene, sal, farinha de trigo e peças de pano. Raimunda ficou inquieta esperando pelo marido pois era dia dele chegar, até que ao longe ouve-se o canto dos carros de boi, era com certeza o comboio de José Pedroso chegando, mas aquele canto para ela estava triste. As duas irmãs correram ao encontro do pai e do irmão, eles se abraçaram e João foi logo distribuído as balas e os sapatinhos que lhes trouxe de presente. Já começava anoitecer, os vaga-lumes e as corujinhas apareceram, piscavam por todo lado, as rãs cantavam triste, hora parecia pertinho da gente e hora ao longe, aqueles seus longos gemidos, parecendo gente. Raimunda sai ao encontro do marido, que havia acabado de desarrear e soltar os bois e depois foram todos para córrego se lavar, descarregariam os carros no outro dia, não tinha nada de perder.
         Raimunda pede Mica para pegar as lamparinas que ficavam na despensa da casa de arreio, em cima da tábua pregada na parede. Já estava escuro, Mica acendeu uma lamparininha, com fogo de uma palha de milho acesa no fogão de lenha e saiu rápido para atender o pedido da mãe, colocou a lamparina acessa no chão, subiu no banco e quando tentava pegar as outras lamparinas. Neste momento a prateleira caiu sobre ela e a encharcou de querosene, tinha lamparina de mais de meio litro. Quando se viu, o fogo já havia pego o seu vestido de algodão, a saia muito franzida, pegava fogo, as chamas se espalharam rápido por todos os lados. Mica grita – Mãe, Pai me acode! Tiburtina ao ver Mica toda em chamas, sai correndo para o córrego buscando socorro: - Papai venha a Mica está pegando fogo, corra, venha depressa se não ela vai morrer. Raimunda desesperada não sabia o que fazer. José Pedroso chegou correndo, pegou logo uma coberta e conseguiu abafar o fogo, mas já era tarde a pobre Mica estava quase toda queimada, até metade dos seus cabelos longos se queimaram, a menina mal respirava. Tiburtina em prantos ajudou colocar Mica na cama, dava dó parecia ter queimado o interior do seu corpinho, e ela perguntava – Mamãe será que a Mica vai morrer? Vou sem a minha maninha? Quero a minha irmã... A mãe respondia em prantos.- Não Tibú a minha Mica não vai morrer, ela não pode morrer, Deus vai nos ajudar. Zé Pedroso via que pouco podia ser feito, mandou Raimunda bater uma bacia cheia de claras de ovos e foi tirar umas folhas de bananeiras verdes, forrou a cama para o corpo da menina não colar nos lençóis e diminuir aquela agonia. Em silêncio todos passavam as claras de óvos em Mica, dos pés a cabeça, ela quase não gemia mais, parecia aliviar a dor. Tiburtina dali não saiu, da sua cama ali ao lado ela ficava sempre zelando da irmãzinha: - Está doendo muito Mica? Mas Mica já não conseguia responder, levantou os braçinhos e pegou nas mãos da irmã e murmurou: - Acho que não vou agüentar, se eu morrer você cuida do meu papagaio Louro, reponde Oi meu Louro, sempre que ele me chamar, tenho medo dele morrer também, cuide bem dele e fique com ele pra você, ele é tão lindo. Tiburtina em lágrimas, diz: -Sim eu cuido do Lourinho. Fica tranqüila Mica, a mamãe disse que Deus vai ajudar e você logo vai ficar boa. Nesta noite ninguém dormiu, ficaram o tempo todo ao lado de Mica, ela gemia sem parar, quando o dia amanhecia ela foi piorando a cada hora, três dias de sofrimento, já não deixavam mais os irmãos Tiburtina e João ficarem no quarto ... De tardinha Mica pede para ver os irmãos, abre os olhos de diz. – Entre Tiburtina, pegue aqui na minha mão, venha João pegue na minha outra mão e novamente fechou os olhinhos e se foi. Tiburtina se desesperou, Mamãe, Papai a Mica morreu. Genú e Domingos Rodrigues estavam lá ao lado da irmã Raimunda, tiraram Tiburtina e João do quarto e fizeram um altar na sala de visitas, tudo coberto de branco com flores de sabugueiro e bambuzinho pregados no lençol branco que colocaram sobre a parede, rosas e manacás nos vasos de um lado e outro. Mica ali deitadinha vestida de branco, parecia estar dormindo, agora dava para ver que só o seu rosto e as suas mãozinhas não sofreu nenhuma queimadura. Ao romper do dia, já tinham colocado a menina num caixãozinho branco, que ali mesmo fizeram durante a noite, agora ela parecia um anjinho. Assim que o dia amanheceu, fizeram o sepultamento de Mica.
         Raimunda guardava parte do vestido queimado, sobrou o corpetezinho com as pontas manchadas do fogo. Raimunda se apegou aquele pedacinho de veste de sua filha, quase todos os dias sob o resto daquele vestido, se punha chorar e ao mesmo tempo, dizia matar as saudades. O tempo passou e Raimunda foi se conformando com a ausência da filha, até que um dia ganhou uma outra menina a quem deu o nome de Altamira e o apelido de Mira, dizendo que tinha mais haver com o nome. Então foi que levou a blusinha queimada de Mica até as águas correntes do Riacho Frio, e permitiu de fato que a pequena Mica se fôra daqui.
Raimunda e José Pedroso tiveram ainda outros filhos, Ari, Raimunda a Minduca, Osvaldo Pedroso e Carlos Pedroso o Carrim, todos constituíram família somente Carrim que não, ficou solteirão, tomando conta dos seus pais até morrerem na fazenda do Cercado. O José Pedroso passou a ser chamado de Velho Zé Pedroso e era muito respeitado em toda redondeza.
         Genuína e João Pedroso passaram a morar no Bom Retiro, sua casa ao lado da casa de seus pais - casa grande de duas partes, de um lado a sala de visitas e de jantar, a cozinha e o quartão da pirunga de arroz e de guardar as sacarias de mantimentos e sal para o gado. Do outro lado formando um” L “ um corredor largo de acesso aos três quartos e ao quartão do casal, logo no fundo. Casa toda assoalhada de tábua de pau d’arco – ipê amarelo, branco, “mas o bonito mesmo é o ipê roxo porque é mais escuro”. Debaixo do assoalho , um porão que dá para um homem de estatura média andar todo em pé, que servia de depósito de lenhas e de ferramentas. Do lado da porta da cozinha tinha uma casinha com paredes, janelas, portas e até uma fornalhinha para as meninas brincar.
         João Pedroso construiu para o casal uma casa bem grande, pois queriam ter muitos filhos. E não demorou muito Genú deu a luz ao primogênito, Francisco Pedroso, apelidado de Chiquito, seguido de Garibaldina a Dina, Valdomiro o Valdú e Rosa Pedroso. João Pedroso e Genú viviam felizes ali naquele retiro, mas para a tristeza de todos, João Pedroso, com apenas trinta e oito anos, veio a falecer, de um ataque do coração. Genuína ficou só tomando conta da Fazenda do Bom Retiro, até que um dia chega de Curvelo, nos carros de bois de Dona Brasilina um jovem mancebo de nome José Lopes Ferrão Castelo Branco, vinha do seminário do Caraça. De lá fugiu faltando poucos dias para ordenar padre, não tinha vocação, ficou lá estudando por determinação de seus pais que vieram de Portugal e moravam na cidade do Rio de Janeiro. Ele ficou morando na Fazendo do Cercado na casa do José Pedroso, e atuava como professor e na primeira oportunidade encomendou uma enciclopédia de mais de doze volumes, cada livro pesava mais de três quilos! Começou a estudar a arte e atendia como médico, pois as pessoas não tinham nenhuma assistência médica, morriam a míngua, assim ele pode salvar varias vidas e curar muitas pessoas.
         Este Mestre Zé Lopes e Genuína começaram a se gostar, mas para se casar com ela, precisava do consentimento dos familiares, então resolveu escrever uma carta para o seu amigo e futuro cunhado José Pedroso, pedindo que intercedesse por ele para que consentissem o seu casamento com Genú. A carta transcrita reflete o modo deste jovem estudioso:

Cercado, 26 outubro de 1921.

                Nobre amigo
                    José Pedroso.
                  Saudações Cordiais,

         Acanhando-me de relatar-lhe bocalmente o quanto de v. s. desejo e também o que há em relação ao meu desejo, cujo é intenso, venho por meio desta rogar-lhe a sua proteção pedindo-lhe conversar com sua mãe e todos os que se interessam por a sua muito digna cunhada, para depois de ouvirem, consentirem de bom grado o meu enlace matrimonial.
         V.S. bem sabe que só por intermédio de boas amizades é que se pode obter o que se desejas é por isso que recorro a v.s. não só por ser vos. Um homem culto e conhecedor das causas e de modo de proceder, como também por neste e muitos outros assuntos de importância ser a sua palavra a única a romper correntes que são causas de muitos empecilhos.
         Portanto, recorro a v.s. pedindo lhe a sua proteção pois ao meu ver tudo o que há é por faltada sua louvável opinião.
         Proteja-me sem susto de não lhe ser eu grato.
         Hei de procurar imitar o seu inesquecível irmão, não só no que diz respeito a amizade que ele lhe tinha, como também em tudo o mais que me for possível.
         Esperando ser agraciado pela sua proteção, subscrevo-me com elevada estima e consideração de V.S. Oº colfº Obrgº e Cdo.
               José L.F.C.Branco

         José Pedroso ficou um tanto impressionado com o pedido do amigo, e cuidou logo de tomar as providências. A sua mãe Rosa Vieira não gostou muito da idéia, acabou concordando, mas determinou que os seus netos iriam morar com ela. Ai então eles se casaram e tiveram mais oito filhos: Péricles o Lico, Geraldo, Girosélia, Violeta, Irene, Vanda, Antônio Euzébio o Tonho, e José Lopes o Zuza. Eles também tiveram muitos filhos formando uma numerosa família. José Lopes Ferrão Castelo Branco fez a sua história por estas bandas, homem culto e sensível, não agüentavam assistir as injustiças que eram feitas na região, principalmente o tanto que se matava e os assassinos ficavam todos impunes. Fez várias denúncias por escrito às autoridades militares de Curvelo e da Capital, até que veio um caminhão cheio de soldados e acabou com os crimes e com o cangaço na região.
         Por outro lado, Domingos e Ana Rodrigues moravam na fazenda Buenos Aires, também tiveram muitos herdeiros, Tioclimines o Tio, Edite, Mercês, Messias, José Ronan, Manoel o Silva, Ester que morreu pequena, a outra Ester apelidada de Aldinha, Domingos e João Batista o Djalma.
         Certa feita houve uma epidemia de malária e atingiu a família de Domingos, as crianças, e até os adultos tinham a febre, repetidas vezes. O Mestre Zé Lopes, reconhecido como médico da região, veio para tratar da epidemia, a febre melhorava, mas daí uns dias voltava, pois não havia remédios que curasse definitivamente a doença. Zé Lopes reclamava – em lugares muito úmidos a doença não desaparece, aqui é muito perto do rio, e dos córregos é um pântano, uma baixada sem fim. Então Domingos chegou à conclusão que o melhor era mudar a Sede da Fazenda Aldeia lá pra cima da serra, bem longe do rio São Francisco, Ana Rodrigues insistia – Mas Domingos, pense ... ficar longe do rio? Eu não vou agüentar, peguei amor a ele e a este lugar! Aqui já está tudo pronto, lugar bonito com tanta água, ir lá pra cima? Eu gosto tanto do São Francisco, ele parece me abençoar todos os dias, com as suas águas límpidas – Mas abençoar como Ana? Estamos todos doentes. – Ele abençoa sim Domingos, abençoa a alma o coração da gente. Se acalme Domingos, a epidemia está passando. Domingos respondia irado– Passando nada, amanhã mesmo vou arrancar a casa. – Mas arrancar a casa? Eu não deixo, é herança dos seus pais e depois casa de morar não se arranca, se mudar dela tem que virar tapera. – Eu também acredito nisso, é como diz o velho ditado, “onde serviu de lar não pode derrubar”. Assim sendo, vamos levar a casa da venda e os currais, paiol, galinheiros e monjolo, lá em cima tem muita madeira que dá para fazer um casarão muito bom, vamos deixar a casa de morar aqui.
         No outro dia cedo, chegaram os homens e começaram desmontando os currais, Domingos tinha arrumado duas turmas, uma pra desmontar e a outra pra tirar a madeira lá no Capão Grande, perto de onde ia erguer a nova fazenda. Foi tudo muito rápido, como de fato havia de ser, por causa da malária. Dentro de pouco tempo Domingos com os seus homens, remontaram os currais, a casa da venda e construiu uma nova casa de morar-casa grande toda de assoalho, mas muito diferente, no lugar de levantar assoalho, fez escada larga de quatro degraus, no meio da casa, que desce para a sala de jantar e para a cozinha, entre os quartos e a sala de visitas. Casa assim por aqui, ninguém já tinha visto. Neste lugar, não se sentia aquela umidade que provocava a febre. Tudo era novo e saudável, uma nova brisa constante e forte, com aroma do campo, do cerrado, que ele já sentia misturar com o cheiro das flores das laranjeiras, dos cafezais e manacás que eles ali plantariam. Estes novos ares trouxe-lhe a idéia de chamar aquele lugar de Bons Ares, mas por outro lado ele queria o nome forte e que significasse também lugar promissor e moderno, então lhe veio a cabeça, o nome de Buenos Aires, capital da Argentina, que era símbolo de desenvolvimento, isto era o que mais se escutava no rádio.
         Ana Rodrigues e os filhos mudaram para a novo lar, de vez em quanto ela voltava a casa velha, lá já não tinha mais febre, ficar ali era pra matar a saudade, ver e pescar no Rio, aos poucos ela foi se acostumando e passou a gostar muito na nova Fazenda Buenos Aires. Passados algum tempo, Domingos Rodrigues faleceu, com apenas 39 anos, e foi enterrado no Pântano, cemiteriozinho perto do Rio.
         Os filhos de Domingos e Ana Rodrigues já tinham escolhido o local para fazer os seus retiros, cada um em um parte daquela fazenda. O Dijalma, ficaria com a sede, com o compromisso de cuidar da mãe até sua morte. Os outros cuidaram logo de fazer os seus retiros. Quando tudo parecia em estabelecida paz, ouviam dizer sobre a construção de uma barragem no Rio São Francisco, um pouco mais em baixo, e que ia inundar maioria das terras da região. Ana Rodrigues quase enlouqueceu e não cansava de perguntar. – Mas a água vai cobrir todas as nossas terras? Como vamos fazer? Isto não é justo, eu não quero me mudar daqui. Já tive de me separar do rio por causa da malária , subimos serra acima e continuamos cultivando nossas terras. Agora vamos perder tudo?
         Dito e feito, só se ouvia rugindo as maquinários e caminhões num leva e traz de terra e pedras. Do outro lado construía-se uma rodovia para ligar uma nova capital do Brasil ao Rio de Janeiro, também se erguia uma grande ponte sobre todo o São Francisco. Era quase sempre, só estrondos das bombas, explodindo as pedreiras para fazer as fundações da barragem - valas enormes e não se avistava o fundo. Ana Rodrigues sentia chagar o fim da paz do seu Sertão. A construção da represa era dia e noite, chamada de “ Três Marias “, por causa das trigêmeas, que moravam numa hospedaria perto do Rio e eram conhecidas não só pela beleza mas pela atenção com que elas recebiam os hóspedes e viajantes. Dizem que elas morreram afogadas, uma tentando salvar a outra.
         Não demorou muito, a represa ficou pronta e as águas do Rio começaram a se represar, a subir e subir cada vêz mais, parecia até confirmar a profecia de Antônio Conselheiro “o sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão”. Isso incomodava a todos os ribeirinhos, cortava o coração de Ana Rodrigues, que nasceu e foi criada nas margens do São Francisco. Cada dia mais a água ia subindo, numa proporção inacreditável, cobrindo as vazantes, os pastos e até serras.
         As pessoas que não acreditavam que as águas chegassem onde os engenheiros avisaram que ia chegar, não tiveram tempo se quer de tirar o gado, suas casas, currais e cercas, foram tudo inundados. Ana Rodrigues, ficava ali olhando a água cobrir as ultimas folhas de cada arvore, de cada buriti. Viu tampar também a última telha da sua antiga morada, que ela não deixara arrancar, para virar tapera e acabar com o tempo. Ela interpelava a todos dizendo. – Mas não está certo, haveriam de salvar pelo menos os animais do cerrado, não se pode concordar com isto, as águas vão formando ilhas, encantoando os bichos, até afogarem todos, porque não fizeram uma balsa para salvar os pobrezinhos. O Rio ... nunca viu uma maldade assim. Como pode se transformar serenidade em dor e extermínio? É isso que trazem os insensíveis homens do progresso?
         Dia após dia Ana Rodrigues sofria. - Mas meu Deus, até onde estas águas vão chagar? No fim de uma tarde, desesperada, ao ver tudo inundando, ela volta pra casa, chama os seus filhos: - Pelo jeito as águas vão chegar até aqui e irão cobrir Buenos Aires inteira, como se não bastasse cobrir os retiros de todos vocês, será que o meu São Francisco vai me deixar sem um pedaço de chão? Não agüento mais ver isto, decididamente eu não saio mais de dentro desta casa, enquanto a inundação não acabar. Os filhos de Ana Rodrigues, assustados, tentavam acalmá-la dizendo . – Mas minha mãe as águas não vão chegar até aqui. –Tomara meus filhos, mas se chegar haverá de me afogar também, não tenho o que temer, eu sou parte destas águas, não vou mais correr delas. Mas vocês o que vão fazer? Sem terras para morar, para plantar e sobreviver? - Nós vamos embora minha mãe, vamos arranjar outras terras, na beira do Urucuia, dizem que as terras são boas, lá é um sertãozão sem fim! Vamos receber o dinheiro da desapropriação e vamos partir. Ana Rodrigues parecia não ouvir aquilo. Não pensava em ir embora dali. Só iria se fosse levada pelas águas do Velho Chico.
         Muitos e muitos dias se passaram e até que em fim, as águas atingiram o tão esperado ponto máximo da represa. Quase toda a fazenda de Ana Rodrigues, ficou debaixo d’água, só Buenos Aires que não, parecia que Domingos Rodrigues, tinha separado aquele local, uns seiscentos hectares ao redor da casa não estavam submersos. Ana Rodrigues pensava... será que o meu Domingos havia pressentido o progresso? Construiu um lugar seguro para passar o resto de nossas vidas, sem malária e sem essa inundação?
         Os filhos de Ana Rodrigues foram todos embora, ela não arredou o pé dali, e só Djalma ficou morando com a Mãe. Primeiro foi José Ronan, comprou terras em um lugar chamado Buritis, juntou o seu gado, arriou a sua mula, chamou outros vaqueiros e partiu, eram mais de quinhentos quilômetros, mas ele foi assim mesmo. Depois os outros irmãos foram indo pra lá, um a um. Quando chegaram, Buritis era um arraialzinho com apenas uma igrejinha e duas ruas. Ali perto eles montaram as suas fazendas e construíram também casas de morar naquele lugar, e aos poucos o arraial foi crescendo e desenvolvendo até se transformar na cidade de Buritis.
         Ana Rodrigues, não quis ir embora na companhia de nenhum de seus filhos, dizia: - Já que eu sobrevivi à malária e á inundação das águas, devo morrer aqui e ser enterrada no “Pântano” junto com Domingos Rodrigues. Ela passou a admirar as águas do grande lago, como apreciara as águas do Rio, sorte que o cemitério do Pântano, também não foi inundado, ficou bem próximo das águas e era ali que seria a sua ultima morada.
         Os dias se passavam, Djalma casou-se com Nilda e ficaram na fazenda Buenos Aires, tomando conta Mãe. Ana Rodrigues já velha, logo ficou doente muitos anos acamada, vítima de um derrame que paralisou o seu corpo. Esta situação foi se agravando até que um dia Ana Rodrigues, partiu. Cumprindo a sua vontade, foi enterrada no cemitério do Pântano. Passado o enterro, no outro dia, Djalma chamou os filhos e a Esposa e disse. – Se preparem, vão arrumando as coisas, que nós também vamos embora. Aqui não me resta mais nada, o que me prendia aqui era a vontade de minha mãe e o meu compromisso terminou. Já tenho um comprador para a Fazenda e vamos nos mudar para Buritis, onde estão os meus irmãos, porque família é pra que se juntar. Nilda respondeu – Verdade Domingos, ficar com os irmãos dá mais certo, a minha mãe já dizia, que os irmãos tem que ficar juntos para cuidar uns dos outros. Domingos satisfeito de ouvir a mulher concordar com a sua idéia respondeu - Então Nilda é pra onde eles estão que iremos também. Em Buritis, eles deram muita boa sorte e nós vamos viver é lá .
         Dentro de poucos dias eles arrumaram a mudança, venderam a fazenda de porteira fechada, agora bastava juntar os pertences pessoais de cada um e partir. Rumo a Buritis.
         Na verdade para Djalma ir embora dali não era tão simples assim, só de pensar ele chorava, sempre as escondidas, para não preocupar a sua esposa e os filhos. Mas tinha mesmo que ir, antes de sair ele foi ao quintal olhou para tudo que ali deixava, as mangueiras, o pomar inteiro, as plantações, o paiol e os currais, sentia que estava deixando para traz um pedaço de si. O monjolo em silêncio parecia ter perdido as suas forças, não se ouvia nem um socado, apenas as águas do rego chiavam sobre o cocho travado. Socar arroz e café para quem? Se o pai Domingos Rodrigues a muito já partiu,os filhos e nem os empregados moram mais aqui, até a mãe Ana Rodrigues se foi, e agora também ia se embora o último deles, levando a todos os que aqui sobraram. Djalma, se despede de tudo, a sua grande vontade era levar com ele, aquele inteiro pedaço de chão. Em silêncio sobe no carro com Nilda sua esposa, e os seus três filhos, (Saber os nomes). No meio da subida da serra, ele não resiste, para e desce do carro, e olhando para o cemiteriozinho do Pântano, parecia sentir as ondas da águas do imenso lago banhar o túmulo da sua mãe, ali onde ela queria pra sempre morar e timidamente ele acena com as mãos, se despedindo, dando adeus àquele lugar. Djalma foi se embora daqui, e assim termina a história de Domingos e Ana Rodrigues neste nosso sertão de São Francisco.

FIM